Pintura com têmpera de ovo
O artista plástico e sacro Sérgio Prata ensina em seu terceiro passo-a-passo na revista Perfil Casa a pintura com a têmpera de ovo, que pode ser feita com a gema, a clara ou os dois.

Fotos: Marcelo Marafante

Os aglutinantes

Chamamos de aglutinante a parte líquida, contínua, solúvel da pintura. É a cola, óleo, cera ou toda substância que servirá para agregar os pigmentos sobre um determinado suporte, devidamente preparado. De um modo geral, os pigmentos são macerados (óleo), molhados (colas à base d’água) ou misturados com os aglutinantes para se fixar sobre o suporte. Cada aglutinante possui um solvente e compatibilidades específicas.

Os pigmentos

De um modo geral, os pigmentos de diversas proveniências se misturam bem no aglutinante de têmpera de ovo. Você pode macerar pigmentos com água, até obter uma massa espessa e úmida. Isto pode facilitar a mistura com o aglutinante. Se preferir trabalhar com pigmentos secos, uma dica é válida: quando um pigmento não se mistura bem em um aglutinante, coloque algumas gotas de álcool sobre o pigmento, para quebrar a tensão superficial.


A gema de um ovo, com aproximadamente 15 ml, é uma emulsão natural, como o leite, com partículas oleosas suspensas em água. Uma emulsão de gema de ovo seca rapidamente. Após alguns minutos, você pode pintar sobre a camada precedente. No entanto, a secagem profunda pode levar de seis meses a um ano. A clara de um ovo, com aproximadamente 40 ml, contém uma solução rica em albumina, que não é solúvel em água. Ela proporciona claridade e transparência às cores. Como não contém partículas oleosas, deixa a pintura menos flexível. Podemos adicionar goma arábica e terebintina de Veneza, para obter um aglutinante diverso do natural.

Têmpera à base de ovo
É aconselhável a todo pintor que comece a trabalhar com o aglutinante puro de têmpera, antes de testar os aglutinantes mistos. Evite manusear o ovo com instrumentos metálicos, para evitar a ferrugem. A melhor opção é utilizar instrumentos de vidro, cerâmica ou plástico, no manuseio do aglutinante. Trabalhe com higiene. Comece empregando simplesmente um pouco de gema, com água destilada, sobre um papel, como se fizesse uma aquarela ou guache. Para cada gema de ovo, empregue de cinco a oito gotas de óleo de cravo. Não exagere na quantidade de óleo de cravo, em pinturas sobre levkas (madeira), pois pode ocorrer craquelamento da camada pictural. A utilização de vinagre como anti-séptico pode atacar alguns pigmentos.

Têmpera com a gema
Coloque a gema do ovo sobre um prato, retire cuidadosamente (com um pincel ou beliscando com seus dedos) seu invólucro e o germe. Misture a gema adicionando água destilada em volume que pode ser de 1/3 até 1/1 (um volume de gema para um volume de água). Adicione de cinco a oito gotas de óleo de cravo como anti-séptico (para cada gema), que tem a propriedade também de anular odores. Lembre-se que anti-séptico demais não é problema, mas, de menos, pode propiciar o aparecimento de fungos, se a pintura permanecer em condições de umidade. Para pintar, misture este aglutinante com pigmentos em pó. Técnica ideal sobre suporte rígido (madeira, preparada com a preparação universal magra). A cor da gema influencia a gama cromática da pintura. Refração única dessa técnica.

Têmpera com a clara
Coloque a clara sobre um prato fundo. Bata-a até espumar. Pegue-a com uma esponja vegetal úmida e transfira-a para outro prato fundo. Fazendo isso, a parte ruim para a pintura ficará na esponja. A parte boa ficará no novo prato. A gema contém albumina pura e 85% de água, mas podemos adicionar um pouco, se desejarmos. Para endurecê-la, podemos acrescentar 1/4 de alume de potássio dissolvido na água, porém, essa prática poderá fragilizá-la. Como anti-séptico, utilize algumas gotas de óleo de cravo. A pintura com a clara é propícia para veladuras (transparências).

Têmpera com a clara e a gema
Pegue a clara e a gema, tire a película que envolve a gema e as partes mais grossas do ovo, misture bem, adicionando um pouco de água para regular a secatividade. Adicione algumas gotas de óleo de cravo, como anti-séptico.

Teste as três técnicas e note que existem diferenças entre elas. Teste a reversibilidade da pintura com a água. Experimentando as diferentes técnicas de têmpera, você perceberá qual é mais gorda (oleosa) e qual é mais magra (menos oleosa). Uma delas tem maior poder de cobertura, e a outra é propícia para veladuras, transparência. Se desejar, mantenha uma pintura em têmpera sem anti-séptico, em local úmido. Você perceberá o surgimento de uma colônia de fungos e o ataque de pequenos insetos.

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