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Aulas de arte
A Revista Perfil Casa inicia nesta edição um passo a passo diferenciado. Começamos agora uma série de matérias sobre as mais nobres técnicas de pintura da História da Arte, com a colaboração do artista plástico e sacro Sérgio Prata.
Fotos: Marcelo Marafante
A Revista Perfil Casa inova mais uma vez e traz, a partir desta edição, verdadeiras aulas de arte. Com a colaboração do artista plástico e sacro Sérgio Prata, vamos produzir uma série de matérias sobre técnicas de pintura, a começar pelo afresco. Nesta série, o artista abordará, passo a passo, cada uma das técnicas em ordem cronológica. Além de conferir o passo a passo nas próximas páginas, Sérgio Prata disponibiliza para nossos leitores informações mais completas sobre os cursos que ministra no site www.sergioprata.com.br.
SOBRE O ARTISTA
No início da carreira artística, Sérgio Prata foi campeão nacional de esculturas em areia no concurso organizado pela Air France, em 1981 (prêmio de viagem a Paris). Ele então aproveitou o prêmio para estudar na École Nationale Supérieure des Beaux Arts de Paris, escola que formou artistas como Renoir, Delacroix e David, entre outros.
Na Escola Nacional Superior de Belas Artes de Paris, Sérgio especializou-se em afrescos (é um dos raros especialistas em atividade no Brasil) e em técnicas de pintura, durante 5 anos de estudos.
Desde então, o artista dedica-se à pesquisa e ao ensino de técnicas de pintura. Seu atelier transformou-se em local de referência e convergência para os estudantes de arte e artistas de várias regiões, interessados em especialização em técnicas de pintura e de outros ofícios de arte, como vitralismo, iconografia e muralismo.
Autor de centenas de obras em diversas técnicas sobre tela, cerâmica, vitrais, afrescos e murais em mais de dez igrejas no estado de São Paulo, o artista dedica-se à pintura de arte sacra e de telas para uma exposição individual na França.
No atelier do artista vemos ícones, vitrais, telas, painéis murais, pigmentos e obras em andamento. Prata é também autor de cinco livros, um DVD, um CD-room e diversos cursos on-line sobre técnicas de pintura e ofícios de arte.
Sérgio Prata retornou à França em 2002, como professeur em stage na Belas Artes de Paris, onde proferiu palestra para os estudantes. Foi quando freqüentou também o atelier Saint-Luc de iconografia, especializando-se nesta rara arte sacra. Orientou a criação de novos materiais, na famosa empresa Sennelier, na Bretanha.
Em 2006, retornou à França, a convite das empresas Sennelier e Raphael, do ramo de materiais artísticos, visitando atelieres, museus e galerias em diversas regiões.
Em 2008, Prata guiará um grupo de artistas brasileiros na descoberta dos atelieres, galerias, museus, castelos e cidades onde viveram artistas nas regiões da Bretanha, Normandia, Loire e em Paris, na França (mais informações estão disponíveis no site do artista).
AFRESCOS
Procedimento conhecido desde a Grécia antiga, permitiu que algumas das mais belas obras de muralismo da Idade Média e do Renascimento chegassem até nossos dias. A Capela Sistina foi pintada por Michelangelo nesta técnica. Giotto, Masaccio, Fra Angélico e outros mestres empregaram esta trabalhosa técnica em suas obras-primas.
O afresco está para a pintura assim como o latim está para as línguas neo-latinas. É a técnica de base, que deu origem às demais. A verdadeira técnica do afresco está na fronteira entre a pintura e a escultura, pois o pintor deve fazer seu próprio suporte.
No Brasil, são raros os pintores a terem empregado esta técnica: Sansom Flexor, Émeric Marcier, Burle Marx, Portinari, Fúlvio Pennacchi são seus mais renomados expoentes.
O Afresco é a pintura feita somente com pigmentos em pó e água sobre uma argamassa (intonaco) constituída de cal hidratada e areia, enquanto está em fase de secagem, ou seja, ainda está fresca. A cal, sendo alcalina, exerce forte poder anti-séptico, garantindo a perenidade da pintura.
Por ser uma técnica trabalhosa, que exige enorme destreza do pintor, é pouco empregada na atualidade. O afresco é uma das técnicas mais resistentes ao tempo, às intempéries e pode ser executada no exterior dos imóveis, como o que ocorreu no sul da Alemanha.
O afresco antigo era feito com três camadas: trusilar, arriciatto e intonaco. O afresco contemporâneo, feito sobre paredes com chapisco ou suportes removíveis é feito com duas camadas: o arriciatto (dois volumes de areia para um volume de cal) e o intonaco (um volume de cal para um volume de areia de rio peneirada).
É importante utilizar areia de rio limpa e lavada. A água empregada, de preferência, não deve conter cloro. Se for fazer um afresco usando como suporte uma parede com chapisco de cimento, é essencial esperar a cura (secagem total) do cimento, que é de 74 dias.
PASSO-A-PASSO
QUEIMANDO A CAL
Você deve “queimar” a cal hidratada (cal de pintura) com alguma antecedência. Queimar significa colocar a cal sobre a água, em um recipiente estanque. No Renascimento queimava-se a cal por 6 meses a 2 anos, pois empregava-se cal viva. Hoje temos a cal extinta (hidratada) e a sua queima torna-se estável em 24 horas. Deixe a cal sempre imersa na água (abaixo de dois dedos de água). No momento de trabalhar, retire a água e utilize somente a pasta de cal queimada.
O ARRICIATTO
Coloque dois volumes de areia fina e um volume de cal queimada em um recipiente plástico. Macere com uma espátula de pedreiro. Você deve macerar bem, eliminando todo caroço de cal. A mistura deve ser homogênea. Aplique sobre o chapisco ou sobre um painel transportável, com o auxílio de uma espátula (colher de pedreiro) e uma desempenadeira. Desempene, deixando a superfície sem cavidades e protuberâncias. Deixe secar.
O PROJETO
Seu projeto deve ser feito em aquarela ou pigmento com cola à base d’água sobre papel, antes de fazer o seu intonaco. Você deve fazer uma transparência do desenho sobre outro papel para facilitar a transferência das linhas principais do seu estudo para o intonaco do afresco.
FAZENDO O INTONACO
O intonaco é feito com um volume de cal queimada e um volume de areia. Macere bem com uma espátula fina (colher de pedreiro língua de gato) e coloque sobre o arriciato, desempenando e alisando, enquanto a massa estiver úmida.
MÉTODOS DE TRANSFERÊNCIA
O desenho pode ser transferido por técnica de incisão ou por técnica de spolvo. A incisão é feita com um objeto pontiagudo que é passado sobre as linhas principais do papel transparente, criando um sulco sobre o intonaco. O spolvo é feito furando-se a transparência nas linhas da composição e pulverizando com um saquinho de tecido sobre o desenho. Uma pintura sobre o arriciatto pode ser feita para delimitar as linhas gerais da composição, permitindo ao pintor o cálculo da quantidade de argamassa colocada por dia (giornatta).
A PINTURA
A pintura é feita com pigmentos em pó misturados com água, durante o período em que o intonaco ainda está úmido. Nenhuma cola ou aglutinante é adicionado ao pigmento, além da água, que deve ser livre de cloro, de preferência, uma água de poço ou destilada. A fixação é feita pela cristalização que ocorre durante a secagem do intonaco. O artista deve pintar com uma intensidade de contrastes e cores maior do que o resultado final desejado. Durante a secagem, o branco da cal exerce forte branqueamento em algumas cores. Todos os pigmentos devem ser testados sobre um pedaço de intonaco, para que o artista certifique-se de sua estabilidade no meio alcalino.
O ACABAMENTO
Alguns retoques podem ser feitos na técnica do afresco a seco, que emprega leite de cal e pigmentos. No entanto, o afresco a seco possui menor resistência, devido à sua porosidade. Na técnica do afresco úmido, mais tradicional e resistente, a pá (tipo língua de gato) é aplicada pelo pintor, em um procedimento cuidadoso, empurrando delicadamente o pigmento para dentro do intonaco e fechando a camada de cristalização. Um bom afresco tem a textura de um mármore. Pode receber chuva, mas deve ser protegido do sol, para que os pigmentos resistam longamente.
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